Estrada Real – Tião Paineira

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Estrada Real – Tião Paineira

Seu Tião ParreiraSeu Tião Parreira

  • – Esses Janeiros tá pesando muito….

– Que bom minha gente, seja bem vindo os dois.

– Mês próximo, dia 10, completa mais um. São 87, é muito Janeiro, tá pesando muito.

– Agora, nessa casa daqui só eu mesmo. Minha dona se foi faz 5 anos.

– Conheço. Conheço São Paulo. Me levaram lá. Minha dona foi também. A gente ficou num prédio, lá do alto se via os carrinhos tudo pequenininho lá em baixo.

– Num lembro, só sei que era um prédio, que se via os carrinhos lá em baixo tudo pequenininho.

– Desde muito criança. Via meu pai mexendo no barro. Ganhava barro do meu avô. Comecei enrolando bichinho na mão. Os torno tava sempre ocupado. Enrolava bichinho na mão. Tirava cachorro, gatinho, fazia galinha….

Seu Tião Parreira A

 Anja Maria, Anja Ângela. Mãos que fazem bons doces, bons bolos. Olhos que vigiam em favor do nosso conforto. Voz calma que conta boas coisas. Tudo angelical. 

A Pousada São José da Serra, tem o básico para você estar                            bem. O preço é bom. As pessoas camaradas. O lugar é discreto e                            tem a privacidade necessária, Gente Grande sabe do que falo.

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 Ela é muito perto do centro histórico de Tiradentes, isso é ótimo. E muito melhor ainda tem essas anjas pra cuidar da gente. E alma de anja faz o que? Felicita a nossa. Anja Ângela é  mais faladeira, e sua sensibilidade levou nossa conversa pra conciliação de afinidades. Ela veio mostrar uma foto, que guarda com carinho de Nhá Chica. Contei que no caminho de volta  passarei em Baependi para conhecer o santuário.

Seu Tião Parreira E

Mas quando elogiei uma peça de cerâmica a anja abriu seu coração e contou  com carinho de um seu tio, Tião Paineira. Artista nato da terra,  ceramista de reconhecido talento, ser humano que adora prosear. E lá fomos nós para, ali pertinho, Recanto dos Cuiabás.

Seu Tião Parreira F

– Fios? Foi 6, na verdade 5 por que um não vingo.

– Um só deles. Só um põe a mão no barro. Os outro, um trabalha numa fabrica, as meninas cuida de casa. Tem um que fabrica telha, é barro, mas ele não põe a mão no barro.

– Sempre morei por aqui. O sítio onde nós morava era ali pra perto da serra. Agora lá tem lá um monte de casa igual. Fizeram bastante mesmo.

– Nunca fiz outra coisa. Quando eu era moleque tinha de levar a mercadoria pras feira, pros caminhão levar embora. Depois ajudar nas telhas e nos bloco era duro deixar uma fornada de telha pronta. Os bloco secava no sol, mas as telha tinha de curtir no fogo.

Tinha forno grande lá no sítio.

– Quando o turismo chegou o povo ficou feliz. Dava pra fazer só bichinho e utilidade. Vivia do barro fazendo o que gostava.

Seu Tião Parreira G

O Senhor Sebastião Paineira e seu atelier ceramista são citados no roteiro oficial da Estrada Real. Nessa foto ele testa um “Pio”. Faz parte da sua arte fabricar esses apitos de barro que imitam fielmente o canto de pássaros. Considero uma parceria com Deus, um humano conseguir moldar em barro um artefato que reproduz o som dos pássaros. Seu Tião mostrou pra mais de uma dúzia de “Pios”, com sons diferentes entre si, cada um significando um pássaro diferente. Vale a pena conhecer essa arte.

– O barro vem daqui perto. É fácil de pegar.

– É tem barreiro bom. Desce a barranca, cuvoca a parede, testa a liga, testa a lisura e enche o balaio.

– Mais tenho muito Janeiro, são 87, tá pesando. Ir no barreiro sozinho não dá mais. Tenho muito Janeiro.

– Faz assim moço. Enrola, espicha e põe na curva, vai dobrando se não quebrar tem liga boa. Molha e passa a mão se ficar lisinho tem pouca areia vai dar bom acabamento, tem lisura, vai ficar lisinho.

– Cuia, moringa, jarro…..

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Seu Tião Parreira H

Seu Tião Parreira ISeu Tião deixa exposto na frente da casa várias casas modeladas em barro. Vejam a perfeição, admirem os detalhes. Claro que gosta, quem é sensível para e vai conhecer esse artista.

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– Claro, vamos subir. Passo o dia nessa tapera. Faz 5 anos que minha dona foi embora. Ela vinha me trazer café, vinha prosear….

– Senta por ai….

– Olha é colocando o barro nessa curva que a liga se mostra.

– Não a água é qualquer uma. Só não pode misturar barro de dois dias. Vez ou outra se traz barro com cor mudada, se misturar pode ficar ruim.

– Não parece a minha dona fazendo pão? Amassa igual.

– Sabe moço esse torno tem mais de 50 anos. Meu trabalho aqui. Jeito estranho de sentar, né? A gente acostuma.

– Esse tantinho tá bom. Começa assim. Montoa o barro aqui, molha um tantinho, amassa, mistura mais um pouquinho. A mão é a forma. Veja. …..

Seu Tião Parreira J  Seu Tião Parreira K

– Viu? Olha essa cuia tomando forma.

– Acho que o moço da cidade não conhece a única ferramenta usada. Quem diria, né? barbante. Ele que dá o limite da peça.

– Oseis são de onde mesmo? Conheço, me levaram lá era pra mostrar meu barro numa casa de cultura. Minha Dona foi junto. Botaro nois num prédio alto, dava pra vê os carrinhos bem pequinininho lá em baixo.

– Olha moço, era isso que mais eu gostava de fazer. Vixe, o moço conhece os Pius, na cidade grande oseis não usa Pius.

– O moço conhece esse? É Piu de Rolão. (mostra o som) Olha Piu de Passo preto (mostra o som). Piu de Sabiá (mostra o som)

Vamo faze uma moringuinha…..

– Bom proseá com gente como vocês que gosta de arte. Se minha Dona não tivesse ido. Faz 5 anos que ela foi embora. Ela já tinha passado um café. Eu ficava aqui torneando, ela trazia café pra proseá….

Seu Tião Parreira L

– Vem muito colégio aqui. Para ônibus ai fora e as professora põe as criança no terreiro pra assisti eu amassa o barro e pedala no torno. Fico alegre. Se minha Dona estivesse aqui ela ficava feliz com os rostinho de curioso das criança.

– As coisa melhoro muito quando trouxeram o turismo pra cá.

Seu Tião Parreira M

– Quando vem gente maior da pra conta mais causo. Quando meu finado pai era vivo ele ficava falando sobre a mata, sobre o tempo que não tinha estrada e todo mundo tinha que atravessa o grotão ai dos Cuiabás, numa picada da mata. Cruz credo, é lugar assombrado, eu nunca tive coragem de passa lá sozinho depois do sol.

Meu pai foi assombrado várias vezes……

 Solidão, imaginação, o sonho criado. O homem é social, não se ajusta muito bem na solidão.

Hoje, na cidade grande é possível falar em solidão, mas  não em isolamento. Nos campos desse Brasil, muita gente vivia isolada.

 Assombração, esse conceito é meu, é produto de uma alma  solitária e isolada que cria um tema para se ocupar. Como tudo que é novo assusta, a mente isolada cria logo um assombro.

 Assombração é cura da solidão, do isolamento. Quantas vezes você já viu alguém arramar a presença de vários contando estórias de assombros, causos de aparições, mistérios….. Francamente, se você nunca ficou pra ouvir uma prosa dessas,  não conhece bem nosso país e tá perdendo muito. 

– Numa vez, ele ficou proseando no armazém, perdeu a companhia dos outro morado e teve de vir sozinho. Ele tava avisado, já tava sabido da promissão das Almas na quinta feira.

– Quando ele tava na curva da pedra grande viu a alumiação da procissão. Sorte dele, eles tavam passando pelo caminho que ia pro pé da serra. Ficou amuado e quietinho vendo muito de longe o brio das vela e ouvindo os sussurro.

– O povo chama de Procissão do Lamento. Um cortejo pequeno, só de almas, que ficam susurrando alguma coisa que ninguém entende. Tá todo mundo avisado não é pra chegar perto. Se acoita na mata e deixa passar.

– Ficava com muito medo quando meu pai contava. Eu nunca vi a Procissão do Susurro. Ele só viu dessa vez, nunca mais ele perdeu a hora bebendo no armazém.

…………….

– Tem também o caso do enterro. No caminho pra Bichinho, passa um enterro. Diz que é de uma mulher abusada e largada na mata que só foi encontrada podre e nunca foi enterrada com respeito.

– Ninguém sabe o rumo certo desse enterro. Quem viu disse que vem gente carregando um caixão e outros segurando uma corda.

– Meu avô conta que ouviu a mata sendo pisada e um choro fino. Boto seus joelho no chão e se agarro numa Salve Rainha, num Creio em Deus Pai, um atrás do outro, não levantava a cabeça, não abria os olhos,  o enterro tomou seu rumo e o caminho dele ficou livre.

……………………..

– Tem uma estória estranha com meu pai. Minha mãe sabia de mais coisa mas nunca falou do causo. Meu pai tava indo pra casa muito tarde. Quando chegou na gleba do Coronel Anselmo, assim que ele passou o capoeirão teve de fugir. Sentado na porteira tava o bicho mais feio do mundo, fedendo e soltando fumaça. Correu arrumar um lugar seguro e se agarrou com Deus. Ele conta que botou seus joelhos no chão, arrastou uma Salve Rainha, emendou com um Creio em Deus Pai, com outro e mais isso, mais aquilo, até que sentiu um pingo de coragem, foi olhar e o bicho feio tinha sumido. Toda vez que meu pai falava do bicho mais feio do mundo, minha mãe gritava de onde estivesse. Era castigo, era castigo, o bicho só estava querendo companhia de gente à toa. Ela falava com tanta força que não dá para deixar de pensar em castigo….

Obrigado seu Tião, obrigado por estar na estrada da nossa vida.

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Seu Tião Parreira N Pousada São José da Serra.

http://pousadasaojosedaserra.com/contato               Rua dos Inconfidentes, 247 Tiradentes – MG               +55 (32) 3355-1112 

Excelente localização, encostada ao centro histórico Fica numa rua comercial (facilidades) mas como está encravada num terreno recuado e arborizado temos harmonia e silêncio.Essa via que dá acesso tanto a rodovia BR 265 como para e Estrada Real.

Confortável, alguns dirão “muito simples” eu digo, simpática. Não oferece nada abaixo do razoável, acaba sendo um ótimo Custo X Benefício. Vejam.

  

1 Comment

  1. […] Ângela, lá em Tiradentes.Ela é sobrinha daquela maravilhosa figura muito “Gentess”, Seu Tião Paineira. Leia a matéria escrita sobre esse artista plástico, que se expressa moldando o barro. Nosso […]

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