Pânico no Motel

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Pânico no Motel

Pânico 7

– Estão batendo.

– É o meu coração.

– É na porta seu bobo!

– Ah… Aqui não se bate na porta. Existe o interfone e ele não está tocando, e se tocar eu não atendo.

– Estão batendo na porta, estou dizendo!Você parece irresponsável! Que coisa! 

– Tá legal, você cortou meu lance……….. Verdade que estão batendo?

– Claro! Eu ouvi, estão batendo na porta.

– Ser na porta é mais ou menos óbvio. Levantou-se irritado e foi até a porta. Roberto e Beth curtiam a tarde num motel. Quase uma rotina das tardes de terça feira.

Três meses atrás, quando da primeira vez, Beth foi muito criteriosa, escolheu o estabelecimento pela distância da sua casa, por estar numa rua secundária. Deram três voltas no quarteirão para certificarem-se sobre a ausência de algum conhecido nas proximidades….

Foi um preparo tão intenso que Roberto anotou o 18, número da suíte para jogar no bicho.

                            “Quando você convida uma mulher pro motel, elas sempre dizem ser a                                                         primeira vez  mas todas sabem onde está o interruptor da luz”.

E a cada terça feira (dia de rodízio dos carros) a alegria ia aumentando. Tardes memoráveis. Mas essa que narramos foi Inesquecível.

A distância entre a cama e a porta era interminável, Roberto cobriu o trajeto num misto de contrariedade e curiosidade.

– Quem é? – Perguntou desejando se livrar rápido de fosse quem fosse que o estivesse empatando naquela hora.

– Um champanhe para o senhor.

– Não pedi champanhe nenhum. É engano.

– É cortesia. Mais um ano de bons serviços.

– Tá legal, aceito, coloque na portinhola.

– Não dá. E champanhe de Formula 1, não passa na portinhola.

– Tá legal, espera um pouco.

Meio embrulhado numa toalha, mais para bronqueado do que pra contente Roberto abre a porta. Entrou um garçom com cara de babaca carregando uma imensa bandeja que além do champanhe trazia flores e bombons. Por trás do garçom, roubando a cena, entra um homem vestindo um elegante sobretudo e usando um tom sereno de voz. Sem perder o sorriso enigmático, explica.

– Boa tarde. Desculpe interromper a diversão de vocês mais estou aqui a trabalho. Cumprindo minha obrigação comunico que isso é um assalto!

E imediatamente tirou do, sobretudo um assustador revolver. O garçom, mais do que depressa abandonou o ar de cretino-idiota e agindo como uma águia, apareceu com um saco de pano que já continha alguns pertences e passou a recolher tudo o que via pela frente.

– Será assim. Continuou o “chefe da ação”. Exatamente como na TV. Vocês ficam quietinhos, colaboram e nada de ruim, ou de pior acontece. OK?

Pânico 6– Senhora. Disse educadamente para Beth. Seu corpo não me interessa. Mostre-me os braços e o pescoço.

– Essa correntinha passa a ser minha. Passe também essa aliança.

Mostrando continua elegância o líder continuou falando.

– Senhores, agora mais uma desagradável surpresa. Roberto e Beth se entreolhavam apavorados.

– Calma, somos civilizados. As chaves do carro por favor.

O falso garçom que acabava de recolher as roupas do casal sai do quarto, o líder se despede e se desculpa, avisa sobre o interfone estar inoperante, pede cautela em alguma provável reclamação na polícia e saindo tranca a porta por fora.

Beth e Roberto se abraçam, trocam frases desesperadas e destemperadas por longos minutos. Toca o interfone. Era o gerente do motel avisando o final do assalto e convocando todos para uma reunião no pátio do estabelecimento.

Era nonsense puro. Emburrados casais embrulhados em toalhas ouviam as providências e as desculpas do gerente.

Roberto voava em pensamentos imaginando ser aquela amais insólita reunião que já havia participado. Um bando de homens semi nus protestando e culpando o motel por tudo e mais um pouco. Um monte de mulheres histéricas, mal cobrindo o corpo, mas tentando esconder o rosto. Na verdade elas eram mais ouvidas do que vistas. Ninguém se olhava. Havia uma ética não combinada de discrição absoluta.

– Desculpas não resolvem, mas digo que sentimos muito. Só temos agora uma coisa primordial a fazer. Fornecer condições para que todos saiam e possam voltar para casa.

– Chamamos um chaveiro que cuidará de destrancar os carros. Interfonaremos pedindo o número do manequim de cada um. Voltem aos quartos. Será servido um café. Fiquem tranqüilos. Mais alguma coisa?

Um coro unânime se manifesta.

Pânico 5

– E NÃO CHAMEM A POLÍCIA!!! – O gerente jura várias vezes que somente chamará a policia após todos terem deixado o local.

Foi um tempo de espera patético, casais nus num quarto de motel sem nenhum clima para absolutamente nada….

Batem outra vez na porta. Outro sobressalto. Alguém esclarece.

– Sou uma camareira. Vim trazer as novas roupas de vocês.

– Roberto abre a porta um tanto receoso. Realmente era uma camareira trazendo um jogo de roupas. Quase um uniforme visto que para todos os casais foi comprado um conjunto idêntico. Calça marrom e camisa bege para os homens e um estúpido vestido verde para as mulheres. Chamo de estúpido por ser um “modelito”feio demais.

– É o que tinha. Se não gostou, joga fora depois. Pra sair daqui tá bom demais. Sentenciou a camareira.

O casal foi solicitado a experimentar a chave do carro. O chaveiro, um sujeitinho baixinho, gordinho que não economizava risinhos safados para os casais que atendia.

No caminho de volta poucas palavras e muito constrangimento. Perto do local onde Beth havia deixado seu carro, uma despedida sem graça, sem comentários e sem beijos.

Beth se afasta, Roberto acompanha com o olhar e confirma a avaliação: Aquele vestidinho era feio demais.

Roberto dirigi a caminho de casa preocupado em construir uma bela desculpas para justificar seu atraso e suas roupas “novas”.

Morrendo de medo da mulher.

Em casa, contrariando as expectativas a sua roupa “nova” não causou nenhuma reação ruim. Sua esposa ouviu uma patética explicação sobre um banho de sopa que Roberto tomou involuntariamente. Um sorrisinho sem graça encerrou o assunto.

Roberto ficou com uma sensação dúbia. Satisfeito por não ter arrumado uma nova encrenca. Curioso e desconfiado pela serenidade da esposa.

Um banho, tudo que mais queria Roberto era um ritual para se “limpar” de toda aquela triste história.

Banho demorado, corpo e mente livres das lembranças. Num traço de ira Roberto se determinou a sumir com todas as lembranças. O destino da calça marrom e da camisa bege seria sumariamente o lixo.

Morrendo de raiva da mulher

Mas que droga o cesto de lixo estava lotado. Que pacote era aquele que tomava muito espaço. O papel que envolvia o tal embrulho se rompe, uma suspeita, muita vontade de conferir. Roberto tira do lixo o tal pacote, senta, estraçalha o embrulho. Verde, a cor da esperança, agora a cor do desencanto. Verde, outro vestido verde, tão ridículo e idêntico ao que Beth usou para sair do motel.

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