Seu Zé do Carmo e seus Anjos Cangaceiros

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Seu Zé do Carmo e seus Anjos Cangaceiros

Seu ZéQuem conhece Seu Zé do Carmo de Goiana?

Do inusitado, um passeio intenso. Uma incursão na historia, na cultura, na arte e na política do país.

A imensa maioria de nós nunca ouviu falar dessa cidade. Sim…cidade de Goiana e não Goiânia, como muitos…como eu…achei ser apenas um erro de português. Muito menos haveríamos de conhecer o Seu Zé do Carmo, não ouviu falar dos anjos Cangaceiros e infelizmente pouco saiba sobre Dom Helder Câmara. Gosto de arte, principalmente arte sacra. Gosto de ouvir “causos” e adorei viver, exatamente isso viver parte da nossa história. Goiana, tem praia, tem falésia, tem patrimônio arquitetônico preservado. Mas minha ida até lá nada tem a ver com tudo isso. Aliás, eu não sabia (nem havia pesquisado) nada sobre Goiana. Minha única referência era que lá nessa cidade de Pernambuco morava o Seu Zé do Carmo.
A definição inicial era cobrir de automóvel o trecho entre Recife e Natal. Visitaríamos João Pessoa, a praia de Tambaba e Goiana. João Pessoa (ver post sobre a cidade) é um tremendo destino turístico. A praia de Tambaba seria a nossa primeira incursão numa praia nudista (procure post), e Goiana para estarmos com o artesão Zé do Carmo.
José do Carmo Souza veio ao mundo em 1933 com um DNA de artesão ceramista. Seus pais fugiram de Igarassu para se casarem em Goiana. Ela era ceramista e confeccionava máscaras em papel machê.

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   Os livros trazem uma estória um tanto diferente mas o que será narrado, que fique muito claro, foi ouvido do próprio Zé do Carmo.

   Li uma matéria sobre Os Anjos Cangaceiros, trabalho de um escultor ceramista pernambucano que apresentava figuras bíblicas com características dos caboclos e personagens do sertão nordestino.

   Seu trabalho apresentava um sincretismo interessante que apaixonava os poetas, unia o povo e incomodava muito as “ortoridades” e os “caretas“.

   Desse ponto vou narrar da exata forma como ouvi o Sr. Zé do Carmo contar sua estória.

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      Sabe seu moço, o pessoal do governo me chamou pra ir lá do outro lado do mundo (ele quis dizer no Japão) ficar amassando meu barro pra todo mundo ver um sertanejo trabalhar. Era no final do ano, era natal, num passeio levaram a gente pruma praça onde um pessoal fazia um Auto mostrando um presépio. Gostei muito.

     – A prefeitura aqui de Goiana, no ano depois me chamou para fazer um Alto de natal. Fiquei feliz. Eu tava responsável por cuidar do visual. Pintei uns cenários, construí uma gruta, fiz tudo com muito carinho, mas só pude fazer uma apresentação, as outras a prefeitura proibiu. Eles alegavam que eu estava desrespeitando a igreja, que era pecado eu apresentar a Sagrada Família vestida como sertanejo.

JapãoDiscuti muito, não queria ser chamado de pecador, se no Auto lá do Japão, Nossa Senhora era uma japonesa que usava um quimono, porque no Auto aqui de Goiana eu não posso usar uma mulata vestida de chita? Eles mostram as coisas deles, quero mostrar as coisas nossas.

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   Esse genial artista popular que aprendeu com a mãe a retratar em barro, carregadores e cortadores de cana, tocadores de bandolim, agricultores, estava impedido pelas autoridades a retratar as figuras do presépio com a mesma identificação regional que vira no Japão.

   O brilhantismo do primitivismo de sua obra continuou a ser exibido em várias partes do mundo. O Sr. Zé do Carmo ficou mais conhecido e reconhecido sem nenhum outro confronto com a retrógrada política brasileira até o período que antecedeu a vinda pela primeira vez no Brasil do papa João Paulo II.

      Fui chamado lá no Recife, Dom Helder, aquele homem santo, me encomendou fazer uma peça bem regional, bem sertaneja para ele presentear o papa. Ele dizia: – O povo de Pernambuco deve ser lembrado pelo papa.         Pensei bastante e achei que pro papa tinha de fazer alguma coisa da igreja e que levasse a marca do povo do sertão. Peguei o barro e fiz um anjo de 1,70 m, um anjo vestido e armado como um cangaceiro para simbolizar a luta do sertanejo.

   Os livros dizem que a peça foi recusada pela igreja, Seu Zé do Carmo conta que foram os políticos que não quiseram, na verdade proibiram que a peça fosse entregue ao papa.

Claro que os políticos que governavam o Brasil na época da ditadura o Brasil á época tinha olhos muito atentos para aquele que era chamado de “Arcebispo Vermelho”, e não deixaria o ativista do social Dom Helder, fazer chegar ao mundo através do papa a luta sertaneja contra a opressão dos poderosos.

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   Seu Zé do Carmo acabou ficando mais famoso e balizou seu trabalho na reprodução principalmente de anjos com características da cultura sertaneja. Outro personagem polemico criado pelo Seu Zé do Carmo que também acabou ficando famoso foi o Vovô Natalino, um Papai Noel vestindo o gibão usado pelos beatos, chapéu e chinelos de couro. O artista e o personagem receberam elogios e reconhecimento do sociólogo e antropólogo Gilberto Freyre que o classificou como “bom e bravo repúdio ao papanoelismo”. É bom registrar que o ilustre Gilberto Freyre, considerado um dos maiores sociólogos do século XX, sintam pelo exemplo acima, era outro grande admirador, divulgador e defensor do mestre Seu Zé do Carmo.

    Vejam que incrível: Zé do Carmo foi condecorado com o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, através da Lei estadual nº 12.196 de 2 de maio de 2002. Foi muito bom passar horas acomodados em banquinhos feitos de “talboas” vendo aquele mulato vestindo uma calça social de Tergal, o paletó de pijama, uma camiseta de alças e usando chinelas de couro contar em voz serena as estórias da sua vida. Ele conta orgulhoso que sua cidade já foi uma das maiores e mais importantes de Pernambuco e que Goiana havia libertado seus escravos dois anos antes da Lei Áurea ser assinada. 

 

   

 Um pouco de história para os interessados:

   Dom Helder, cearense falecido em 1999 com 90 anos foi desde 1964 arcebispo de Recife e Olinda. Na verdade Dom Helder foi remetido do Rio de Janeiro para Pernambuco e pedido dos militares que implantavam a ditadura no país. Sempre preocupado com aqueles a quem chamava de “empobrecidos”, quando arcebispo do Rio de Janeiro teve atuação marcante implantando pioneiros projetos sociais como o Banco da Providencia, que ajudava pessoas miseráveis e a Cruzada São Sebastião que construía moradias decentes para favelados. Foi um dos fundadores da CCBB, da CELAM (Conferencia Episcopal Latino-americana). Foi um dos propositores e signatários do Pacto das Catacumbas, um documento em 1965, nas Catacumbas de Domitila, em Roma, durante o Concílio Vaticano II. Este pacto teve forte influência na Teologia da Libertação. Dom Helder foi um opositor do regime militar. Utilizou fartamente os meios de comunicação para denunciar as injustiças do governo totalitário até ser proibido pela ditadura de utilizar ou se pronunciar pelos veículos de comunicação e esses igualmente estavam proibidos de fazer qualquer referencia a sua pessoa. Frequentemente viajava ao exterior para divulgar suas ideias pregando uma igreja simples e voltada aos empobrecidos e renovar suas denuncias sobre atitudes que considerava incorretas no governo militar. .          Dom Helder, foi o único brasileiro a ser indicado quatro vezes para o Premio Nobel da Paz.

Turismo em Goiana 

O patrimônio arquitetônico de Goiana é razoavelmente cuidado. A cidade foi decretada Patrimônio Histórico Nacional desde 1938. O Museu de Arte Sacra ostenta uma bela coleção de obras dos santeiros da região.

Seu Zé 2

Pode-se também conhecer várias igrejas. Tem belas praias e abriga um cenário, obrigatório de se conhecer que já foi até protagonista de minissérie televisiva. Quem se lembra do Riacho Doce? Pois o local é a foz do rio Goiana.

4 Comments

  1. Cako Machini disse:

    Passei boa parte do dia sentado num caixote ouvindo dele sua História de vida. Quanto a você e a sua medíocre forma de entender o mundo recomendo um cuidado. Quando for dormir, olhe muito bem debaixo de sua cama, pode haver um comunista escondido pronto para “comer” você.

  2. Daisy Grisolia disse:

    Estive com ele há muitos anos atrás…Ele dizia se os anjos cuidam das pessoas pobres, então os cangaceiros são anjos sim, porque eles cuidavam do povo mais pobre. Tenho algumas fotos…e muitas lembranças

    • Cako Machini disse:

      Essa é a grande mágica que perseguimos. Viajar com o propósito de conhecer coisas e pessoas, se envolver com surpresas, acumular sensações.

  3. […] * Leiam na matéria sobre o escultor Zé do Carmo a atuação de Dom Helder no episódio da confecção do Anjo Cangaceiro. […]

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