TATUÍ, uma cidade de muitos títulos

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TATUÍ, uma cidade de muitos títulos

Uma terra de muitos nomes

Tatuí, a capital da Música, a cidade Ternura, a cidade dos Doces Caseiros. Muitas identificações interessantes e poderíamos incluir mais uma a Terra das Oportunidades Perdidas.

Fico com a impressão que existiu uma forte política de exploração turística na região mas que por algum motivo (incompetência) tudo foi abandonado.

Viajo conhecendo cidades uma vez por mês. Isso é religioso para nós. Acabo fazendo críticas pontuais, mas nunca fiz uma severa crítica ao contexto. Infelizmente Tatuí está dentro desse exemplo. Lá o contexto todo é desfavorável.

Havia estado em Tatuí +- em 1967, acompanhava meus pais que foram visitar um casal de vizinhos e amigos que resolveram mudar para lá. Seu Ribeiro e Dona Dulce. Ela era nascida e criada em Tatuí. Morou na mesma rua que nossa família na Penha em São Paulo SP. Com três filhos criados, num segundo casamento com o Seu Ribeiro, conquistou o sonho antigo de voltar a residir em Tatuí.

Naquela época eu era moleque (juro, já fui criança) minha visão sobre os lugares visitados era outra. Sobre Tatuí fiquei somente algumas poucas lembranças. Lembro que fomos numa Kombi do meu pai e levamos outro casal de vizinhos. Recordo que paramos numa farmácia pra perguntar sobre a localização da rua que procurávamos e fiquei sem ação quando a proprietária taxativamente disse Essa rua? Sei não. Mas me diz na casa de quem vocês quer ir que eu digo onde essa gente mora!” Agradeci e voltei pra Kombi dizendo que a mulher estava brincando. Não lembro como mas encontramos o endereço.

Outra lembrança era a gozação do caipirismo explicito. Seu Ribeiro passou o domingo inteiro lembrando que “… em Tatuí …os pinto, não fais Píu, eles fais Pirr”.  

 

 

 

               

Existia um radialista da Radio Bandeirantes, Morais Sarmento que apresentava um programa de música antiga (década de 30/40) que falava muito em Tatuí. Não sei, não lembro qual a ligação desse campineiro com Tatuí.

Morais Sarmento para a minha geração virou símbolo de coisa velha. Ficou comum a expressão… “Mil novecentos e Morais Sarmento”. Ele odiava ouvir o rádio tocando música importada e dizia que a música antiga era melhor que a música que estava sendo feita no Brasil dos anos 60. Partiu dessa vida com a dádiva divina de não ter conhecido o Funk.

 

Não retornamos para São Paulo sem comprarmos um bom volume do chamado doce ABC, numa doceira referencia da cidade.  Não conhece o doce ABC? A sigla identifica os produtos usados no doce. Dá pra dizer que esse doce é tipicamente um produto da terra, uma criação bem caipira. Abobora. Batata doce branca, Batata doce roxa e Cidra. Aos pedaços os três produtos são cozidos, separadamente em calda de açúcar, o ponto é apurado, os pedaços  já secos misturados e vendidos por peso.

Mesmo sendo um viajante costumas e impulsivo faço uma mínima pesquisa sobre o destino escolhido. Tive a grata surpresa de encontrar farto material sobre a cidade. Confirmar a questão dos doces, ficar curioso por saber a origem dos títulos Cidade Ternura, Capital da Música. E animadíssimo por conhecer o patrimônio arquitetônico da antiga Fabrica São Martinho. Adoro patrimônio histórico, saber que a cidade abriga uma antiga tecelagem que essas construções ocupam uma área superior a 10000 m² bem no meio da cidade, foi empolgante.

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Nosso trabalho é sobre o verdadeiro Turismo da Terceira Idade. Turismo para Maduros. Turismo para maduros descolados. Um Turismo Racional que considera os interesses, objetivos, condições e disponibilidades dos Maduros. Fugimos dos modismos, dos destinos e atrações previsíveis. Buscamos as coisas curiosas, as coisas típicas, excêntricas. Queremos conhecer a alma, a atmosfera a beleza singular de tudo e de todos.

 

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A Terra das Oportunidades perdidas.

Começando pelo critério de grandeza, o esperdício de se ter edificações do século XIX em ruínas e sem o mínimo de aproveitamento, é uma super estupidez até porque uma estrutura daquelas sustentaria todas as outras potencialidades turísticas da cidade.

Fábrica Tecelagem São Martinho e palacete da família Guedes estão localizados no centro da cidade um frente ao outro. A fabrica foi inaugurada em 1881, foi a maior tecelagem brasileira em seu tempo. Fez o algodão ganhar o apelido de Ouro Branco.

                                                                                                                         Ver capítulo específico no final do texto.

A Cidade dos Doces caseiros

O Doce ABC Ganhou a honraria de ser considerado Patrimônio Cultural Gastronômico.

Na internet você encontra muito material a respeito, mas e na cidade?  Onde encontrá-lo? O turista tem que vir com um mapa feito em casa? Aquele que chega de forma desinformado a cidade nunca ficará sabendo sobre o doce. Numa cidade que quer ostentar a fama de Cidade do Doce, não deveríamos ter um feirinha no centro. Não deveríamos ter sinalização pública (placas marrons, pontos turísticos) conduzindo as pessoas para as doceiras tradicionais? São Vicente tem a venda de cocadas na Praça da Biquinha desde o tempo de Martim Afonso.

No bairro boêmio do Rio Vermelho em Salvador, você encontra Acarajé (24 horas por dia em alta temporada) em dezenas de barracas. As baianas só podem trabalhar com a roupa típica e cumprem outras tantas regras.

Qualquer visitante consegue encontrar a feira de doces de São Vicente. E na Cidade do Doce? Onde em Tatuí encontrar o doce ABC que é Patrimônio Histórico Gastronômico?

É dada uma importância muito grande para a comida de rua nas mais importantes cidades do mundo, mas não na Terra das Oportunidades Perdidas.

A Capital da Música

Quem na praça da matriz (sempre de portas fechadas), (outra miopia) repara em duas estátuas homenageando músicos locais. Quem vê na praça em frente ao Museu Paulo Setúbal (político, jornalista, escritor e membro da ABL), vários músicos seresteiros da cidade também  perpetuados imagina que irá encontrar atividade cultural ligada a música popular, musica de seresta.  Decepção. Não consegui encontrar nada a respeito. Acredito que nenhum desinformado político da região ( e os empresários também) nunca ouviram falar da cidade de Conservatória (RJ), a Capital Mundial da Seresta. Conservatória (RJ) explora convenientemente sua tradição  em Serestas e Serenatas.

                                                                                         Ver capítulo específico no final do texto

 A Cidade Ternura

Adoro conversar, conhecer pessoas, saber das coisas através da gente do local. Infelizmente não tive o tanto de contato que gostaria de ter com os Tatuianos. Não tenho queixa do tratamento que recebi de com quem conversei. Mas quem não se respeita, quem esperdiça seu potencial realmente pode ter tanta Ternura assim que justifique esse título. Tenho minhas dúvidas. Ficarei feliz em saber que a população se rebelou contra tanta inconsequência dos (?) mandatários locais.

Tatuí, a Terra das Oportunidades Perdidas

                                                                                                                                                           Quando será que os administradores públicos irão entender que Turismo é a forma mais limpa (não polui), menos impactante (não agride o Meio Ambiente), mais inclusiva (atividade extremamente verticalizada) e de melhor relação Custo X Benefício de impulsionar a economia de uma região. O caso de Tatuí é a essência da expressão Vergonha Alheia, por ser uma base potencial pronta e esperdiçada. Não sabe fazer? Chama gente de fora! Remunera com participação nos lucros. A economia local vai agradecer.

Fábrica Tecelagem São Martinho

https://jornalintegracao.com.br/tag/fabrica-sao-martinho/

http://tatui.sp.gov.br/sobre-tatui

Martinho Guedes Pinto de Mello veio de Portugal para o Brasil com toda família. Foi comerciante importador, prosperou e trazendo sementes de algodão para o Brasil criou condições para a implantação de fábricas que manufaturassem o produto. Em 1881, seu filho Manoel inaugura aquele que seria a maior tecelagem brasileira.

Além do parque industrial foram construídas vilas operárias e o palacete da família. Aliás a casa da família era enorme. Todo esse conjunto já tombado pelo Conselho do Patrimônio Histórico (processo 31.877/94) está abandonado. Teremos ai aquele enfadonho roteiro de explicações sobre existirem penhoras, entraves jurídicos, dívidas, etc., etc. O que falta na verdade é vontade política. O município deveria ser ativo o suficiente para, sempre dentro da Lei, e não ignorando o Direito de ninguém desembaraçar esse extraordinário ativo.

A área comporta um centro de eventos, uma arena multiuso e pode ser sustentado por um empreendimento comercial tipo shopping Center, com torres de escritório que com inteligência não agrediriam o patrimônio tombado.

Um exemplo incontestável é o aproveitamento que a cidade de São Roque fez com as instalações da antiga Brasital.

Tendo uma história bastante assemelhada, essa também tecelagem igualmente do século XIX oferece  há muitos anos cultura e lazer aos habitantes do município e aos turistas. Ocupando uma área equivalente a Fabrica São Martinho, a Brasital comporta Biblioteca, Escola de Artes, Espaços Culturais e recebe um extenso calendário de eventos.

www.informasaoroque.com.br/brasital.htm

www.guiasaoroque.com.br/guia/utilidades/brasital-743-3754

https://www.descubrasaoroque.com/pontos…/centro-educacional-e-cultural-brasital/

Capital da Música

Por Lei estadual, Tatuí tem o título de Capital da Música. Na cidade funciona uma das maiores escolas de músicos do país, Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, mais conhecido como Conservatório de Tatuí.

Pela cidade num trabalho realizado pelo artista plástico Cláudio Camargo, estão expostos personalizações de vários músicos da cidade Bimbo Azevedo João Del Fiol, Nacif Farah, Paulinho Ribeiro, Noel Rudi, João do Irineu, Ditinho Rolim, José Fiúza, Osmil Martins e Raul Martins. Encontrar essas estátuas sugeriu que a cidade mantivesse uma programação de difusão cultural, musical popular. Não encontrei nada nesse sentido.

Homenagear a arte e os artistas, sem fazer uso da arte para integrar a comunidade não me parece apropriado. Repito o exemplo de Conservatória (Valença RJ) onde cada noite de todo final de semana qualquer um pode participar de uma manifestação de rua onde são cantados (com a intensa participação do povo) clássicos da MPB.

https://coisasdegentegrande.com.br/conservatoria-serestas-e-serenatas-voce-sabe-a-diferenca/

          

Morais Sarmento

Meus pais deixavam o radio ligado num efeito sonífero. O programa Morais Sarmento entrava no ar (no ar as 22 horas). Tenho certeza que esse programa foi a referência que me fez gostar das coisas simples interioranas, das canções românticas. Chico Alves, Nelson Gonçalves, Noel, Almirante, a Lira do Xotopó, Altamiro Carilho, Radamés Gnattali, Pixinguinha, Almirante. Diariamente Seu Morais Sarmento tocava uma gravação daquele que ele nunca se cansou de elogiar: Orlando Silva. Ele era extremamente radical nada que fosse moderno prestava. As cidades grandes eram outra porcaria. Era no interior que existia vida.

Alguns bordões usados, criados por ele ficaram na minha memória.                                                             – Quando mandava no ar alguma saudação, dizia… “Toma esse!” E batia nos braços imitando o som de um abraço. –  Quando iria encerar o programa, dizia… “Bom, já vou batendo a minha rica plumagem… até amanhã”.  –  Usava com frequência o conselho… “Carregue a cruz com classe”.

Foi um recordista das comunicações, ficou no ar por 60 anos ininterruptos.

Como amante da música deixou uma coleção de mais de 5000 LPs e 3500 discos em 78 rotações.

 

2 Comments

  1. Eduardo disse:

    Ótimo artigo ! Parabéns! Por favor corrigir: “palacete da família Guedes”e nao Mendes. Vou distribuir suas ótimas críticas construtivas entre outras pessoas.

    • Cako Machini disse:

      Agradeço sua atenção, peço desculpas pelo equívoco.
      Faço um texto sincero, mostro a forma como a cidade se apresentou a nós.
      Espero ter sua companhia como leitor.
      Abraços

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