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Treze Tílias

Treze Tílias.

Treze Tílias. A cidade mais “Tirol” do Brasil. Uma cidade bem pequena (+- 7000 habitantes) do interior de Santa Catarina, criada a partir de um movimento migratório do território Austríaco do Tirol.

Com certeza cada um de nós já visitou alguma casa onde pela organização, cuidado (até exagerado) ficamos com a impressão que a proprietária não faz mais nada na vida além de cuidar (de forma doentia) da própria casa. Pois é, visitando Treze Tílias, andando por suas impecáveis ruas fica-se com a mesma sensação. Tudo é exageradamente organizado.

A cidade é linda e realmente, dependendo do ponto de observação, você é remetido ao Tirol. A arqutetura é fidelíssima, os jardins esmerados, existem canteiros floridos por toda parte, nada destoa e tudo (pelo menos) parece perfeito.

A criação do município

No primeiro terço do século XX o mundo experimentou uma super crise econômica. Tudo estava estagnado. O Império Austríaco mesmo com toda sua pompa estava numa penúria absoluta.

De vários pontos do Velho Mundo partiram ações visando explorar outras terras, visando algum tipo de evolução econômica. Andreas Thaler era o Ministro da Agricultura da Áustria, e ficou a frente de um projeto ousado e interessante. Foi comprada uma grande área no estado de Santa Catarina onde existiam condições climáticas razoavelmente aproximadas com o clima europeu. Além de uma terra fértil e uma natureza exuberante.
A proposta era constituir uma colônia, desenvolver alguns negócios agrícolas.

Desde sempre, tudo que foi edificado na colônia, seguia a tradição e a cultura Austríaca, mais exatamente da região do Tirol.

A escolha do nome Treze Tílias

Tília é uma árvore incidente em regiões de clima Temperado. Além da beleza natural, Tília tem uma utilização terapêutica aliviando o estress e dando estabilidade as pessoas. Talvez tenha surgido dai a mística que essa árvore protegeria os cavaleiros guerreiros.

Mas a escolha do nome da cidade é um pouco diferente. Andreas Thaler, ainda no Rio de Janeiro, quando da sua chegada ao Brasil, encontrou numa livraria um livro alemão com o título Dreizehnlinden, que traduzido temos Treze Tílias. Essa expressão foi a inspiração do Sr. Andreas para batizar a cidade que estava criando.

Esculturas

A cultura sempre foi uma constante na colônia Tirolesa. A escultura e a música sempre foram incentivadas e cultuadas. Treze Tílias é uma referência nacional no quesito escultura. Existe uma tradição familiar, nessa modalidade.
O trabalho feito em Treze Tílias é bem acadêmico, são obras clássicas.
A melhor sensação de Treze Tílias é você percorrer suas encantadoras ruas e visitar os vários ateliês do percurso.

 

Edelweiss

Edelvais é possível escrever também dessa forma, é o nome de uma flor muito presente nas tradições do folclore Austríaco. Na verdade é a flor oficial da pátria Áustria e está grafada numa das moedas do Franco Austríaco e orna as insígnias militares. Por isso adorna muitas peças, tanto artísticas como de uso cotidiano.
Edelvais é uma flor lindíssima encontrada nos Alpes, em altitudes consideráveis. De forma natural ela só floresce em altitudes acima de 1500m.
A mística conta que essa flor surgiu das lágrimas de uma donzela extremamente apaixonada que chorou a morte do seu amado.
Pela beleza, pela mística Edelvais se tornou um símbolo de declaração de amor eterno. Conta-se que os rapazes enfrentavam as grandes montanhas para trazer um exemplar intacto e presentear a mulher amada.
A paixão por essa flor motivou sua cultura em estufas especiais. Além de ornamento, Edelvais é também utilizada na culinária e na farmacêutica.

Os campanários

Campana, campanário, esses são os termos para designar aquilo que abriga um sino. A imensa maioria das casas e edificações em Treze Tílias ostenta sobre algum ponto do telhado um campanário e num local onde as artes plásticas, em especial a escultura, tem tanta relevância, claro que existe numa forma quase exclusiva dos campanários encontrados.
O sino é uma forma de comunicação. É contado que existia uma forma de estabelecer conversação através dos sinos. Alguma coisa aproximada com o Código Morse (linguagem usada nos telégrafos) (se é que as pessoas ainda se lembram disso).
Os sinos marcavam horários de almoço, final de trabalho e serviam para repassar alguns recados. O sino era uma forma de integração usada pelos pioneiros.  O campanário, necessário para conservação dos sinos acabou sendo uma forma de ostentação de diferenciação das famílias.

Ter um campanário é um símbolo presente nas tradições de Treze Tílias. Se atente, não deixe de apreciar os muitos e variados campanários que você encontrará passeando em Treze Tílias.  

    

Cerveja BIERBAUM

É impossível falar sobre a cultura dessa região sem falar em cerveja. Treze Tílias abriga uma das mais festejadas cervejarias artesanais do Brasil. Bierbaum.  Não deixe de conhecer. A marca opera um restaurante-bar onde além da extensa carta de cervejas produzidas pela cervejaria, uma ótima comida alemã é servida.

Sem maiores considerações, mas com muito entusiasmo, lembramos que uma comunidade pequena, com tantas tradições arreigadas, só poderia oferecer, além da excelente cerveja, muita mestria em salsichas, eisbein (joelho de porco), sauerkraut (chucrute), bratkartoffeln (batatas).
Em algumas outras casas é possível encontrar comida alemã de ótima qualidade, visitar o bar-restaurante da Bierbaum se torna preferencial pela oportunidade de degustar cervejas excepcionais.  

Treze Tílias X Nazismo

Como contamos no tópico da fundação da cidade, o território foi comprado numa operação do governo austríaco. O processo migratório começou a ocorrer em 1933.

A Áustria vivia nessa década de 1930 uma seríssima crise política institucional, que depois de muitas idas e vindas acabou com a anexação do território Austríaco por parte da Alemanha do Terceiro Reich.

Ao pé da letra Treze Tílias era uma colônia alemã e nazista estabelecida no Brasil.

É contado que a situação não causou maiores (e piores) desdobramentos por ter sido emitido os títulos de propriedade das terras em nome das famílias pioneiras.

Desconforto

Vocês conhecem aquela fábula dos três cegos que foram tatear um elefante? Um tocou no dorso, outro na orelha e o outro na tromba. Cada um deles ficou com uma visão diferente e imprecisa sobre como na realidade seria um elefante.
Francamente, não sei se fiquei com uma visão correta, ou não sobre a visão de mundo da população treze-tiliense, mas infelizmente fiquei com a impressão de que a cidade pensa o mundo numa visão de extrema direita e isso me incomoda demais.

Puxo conversa com todo mundo, faço questão de conhecer os lugares e as pessoas que são naturais da região. Repito, fiquei com a impressão de que o pensamento coletivo é esnobe, excludente, sectário. Sectário, exatamente isso. Não se trata de terem apreço por suas tradições. Fica a impressão que o que não é “ariano” é de qualidade inferior.

O maior exemplo me foi dado quando conversando com um dos mais qualificados escultores da região, falei sobre conhecer um projeto social onde se usa a arte da escultura como via de inclusão social (Pirapora do Bom Jesus SP), fui reprovado e criticado. Na opinião do talentoso, porém arrogante senhor, quem não frequentou uma universidade europeia não pode ser chamado de escultor.

 Conclusão

Visite Treze Tílias, vale a pena. Aprecie sua arquitetura, o perfeccionismo de suas ruas, a arte ali produzida. Beba a boa cerveja, como de um variado cardápio alemão. Curta a beleza de cada um de seus tantos e tantos campanários. E se você não tangenciar questões ideológicas a conversa com os descendentes dos pioneiros até será boa. 

Compondo um roteiro

Quando você se decidir visitar Treze Tílias, como sempre recomendamos visite também as cidades do seu entorno.
A região tem fortes manifestações de culturas europeias, e isso sempre é muito interessante de ser visto. Com esse objetivo não deixe de visitar Fraiburgo.
Outra coisa interessantíssima, Videira e Joaçaba são cidades relativamente próximas e ambas ostentam a figuração entre as melhores cidades para se envelhecer. Esse é o tipo de assunto que os Maduros devem sempre conferir.

Boa Viagem!

   

 

    

Cako Machini
Cako Machini
Desde 1953 também responsável pelo mundo que vivemos. Publicitário, marqueteiro, empresário. Criativo, amante das artes. Resolvido a viver o Outono de sua Vida junto a natureza, priorizando as palavras e as viagens.

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